As diferenças entre fonética e fonologia

Antes de passarmos para a série “Um esboço sobre alguns componentes da língua: fonologia”, vamos primeiramente apresentar algumas diferenças sobre esses dois campos distintos, a fonética e fonologia.
Mas para você entender melhor essas diferenças, saiba que embora a fonética e fonologia sejam diferentes, uma não vive sem a outra e, com base nessa relação romântica, vou dar alguns exemplos de outras coisas que pouco ou nada tem a ver com a fonética e a fonologia.
Hardware vs. Software
Não sou da área de informática, então se eu disser alguma bobeira, por favor, me corrijam (mas não só nessa parte, mas sim no texto inteiro!). abr0137l

No hardware, você pode tocar, mexer, consertar diretamente, chutar, pular em cima, colocar fogo, enfim, sentir. O hardware é uma entidade física, você pode tocar na tela do computador, teclar no teclado, clicar no mouse, plugar o USB, ajustar a webcam… Todos esses dispositivos são palpáveis e concretos, você pode manipular qualquer um deles. Mas não pode, por exemplo, tocar no Windows, no Android, nos aplicativos móveis…
Mas você pode me rebater dizendo: “olha o CD de instalação do Windows, estou tocando nele!” Isso mesmo, você está tocando no CD, que é um hardware. Quando você desliza e pressiona os dedos na tela do seu smartphone para controlar o Android, iOS, ou seja lá o que for, você não controla diretamente o sistema operacional, você toca primeiramente na tela, que é um hardware, portanto, físico, e só então, o hardware é controlado, mas não é controlado por você diretamente, mas antes por mecanismos presentes na tela.
É praticamente nessa ordem: você ==> hardware ==> software. Isso porque o software é uma entidade abstrata, e você é uma entidade física. Mesmo o software sendo diferente do hardware, um não vive sem o outro. O que seria de um supercomputador, grande, elegante com uma ótima webcam, uma aparelhagem de som de outro mundo e com uma gigantesca capacidade de armazenamento sem um sistema operacional que você pudesse utilizar esses dispositivos? O que dizer então de um sistema operacional fantástico, mas sem um dispositivo onde pudesse ser executado?
Quem sabe no futuro você seja como um hardware e possa controlar o software de forma mais direta, entretanto, sempre haverá um muro entre o mundo real e virtual, o concreto e o abstrato, você e o sistema.
Cérebro vs. Mente
Você pode abrir a cabeça de alguém e tirar seu cérebro (isso se a pessoa tiver algum), você vai poder tocá-lo, tirar sangue, ver os miolos, ou seja, ter um contato direto com ele.
Já a mente é algo mais abstrato (na verdade, muito abstrato) *, você não vê a mente, não pode tocar nas suas memórias, às vezes não pode sequer controlar seus pensamentos e imaginações: por exemplo, não pense numa cachoeira verde em cima de uma montanha azul. Viu? Você acabou de imaginar uma cachoeira verde em cima de uma montanha azul.
being-conscious
Mas o cérebro sem mente é só mais um órgão e a mente sem expressão corpórea é quase um fantasma.
Conseguiu perceber a diferença e dependência entre essas duas propriedades? Não só entre elas, mas também entre o hardware e o software? Uma entidade é física, a outra abstrata; uma parece ser mais “refinada”, a outra mais “bruta” ¹. Embora elas sejam diferentes, elas são dependentes uma da outra.
Fonética vs. Fonologia
A fonética analisa como o som é produzido, para realizar o fone [f], você precisa basicamente juntar seus dentes de coelho no lábio inferior e assoprar. Entendeu? Está ali, é mecânico, claro, visível, palpável. Se há uma mudança de som, há uma mudança na representação desse som. Por exemplo, o carioca, para dizer a palavra , ele diz [koɾa’sɐ̃w̃], porém, talvez um baiano diga a mesma palavra assim: [kɔɾa’sɐ̃w̃], perceba a diferença no segundo segmento, ele varia do dialeto carioca, para o baiano.
Isso faz diferença? Foneticamente sim, mas não fonologicamente. A fonologia analisa a função do som numa língua, e ambos os sons [o] e [ɔ], nesse caso, não atrapalham em nada o entendimento da palavra .
Então a notação fonológica seria a seguinte: /kOɾa’sɐ̃w̃/, a notação fonológica é feita entre barras, isso vai ficar mais claro no próximo texto sobre fonologia. O que eu quero ressaltar é que o /O/ é um arquifonema formado (neutralizado) pelos fones [o] e [ɔ], a notação fonológica não vai levar em conta exclusivamente como você fala uma palavra, porque ela quer o que os estruturalistas na época queriam: transformar algo variável em invariável. Ou seja, a notação fonológica não é a representação da sua fala, mas sim da sua língua.
fonologia
Mas como é que eu “falo” a representação fonológica? É fácil, não fala, porque a representação fonológica não tem som, isso mesmo, não tem som, bem diferente da representação fonética que possui som. Em compensação, os fones não têm significado, já os fonemas atribuem um significado dada uma sequência, o fonema sozinho não possui significado.
Essencialmente, essas são as diferenças entre fonética e fonologia, uma mais física, a outra mais abstrata. Uma mostra de fato como o som é produzido, a outra “mascara” esse som. Uma precisa de mais representações porque é sensível às simples mudanças no som, a outra consegue generalizar muitas variedades numa única representação. Uma estuda o som da fala, a outra da língua.
A fonética lida com a produção de sons, você pode analisar uma língua nunca antes descoberta, e analisar os fones que ela possui, sem muito conhecimento antecedente, depois de analisar todos os sons dessa língua, você vai analisar os padrões sonoros dessa língua, aí você já está partindo para a fonologia. Você sai da variação e começa a encontrar padrões invariáveis numa mesma língua.

Os cariocas não são os únicos a chiarem com o /S/, em Recife, a palatalização (o chiado) é uma realidade mesmo na fala culta.
Os cariocas não são os únicos a chiarem com o /S/, em Recife, a palatalização (o chiado) é uma realidade mesmo na fala culta.

É como conhecer uma pessoa, no início, você precisa saber muito bem como ela é, os gostos, o estilo, condição econômica, visão de mundo e tudo mais. Você pode ficar preocupado se você fez alguma coisa, se falou alguma coisa porque não sabe muito bem como ela “funciona”. (Fonética)
Depois de conhecer muito bem a pessoa, você vai saber como é o padrão comportamental dela, você sabe que a pessoa vai ficar feliz se você a convidar para comer num restaurante, sabe que ela vai ficar com raiva se você assoprar o canudinho e fizer bolinhas no refrigerante, você sabe como ela se comporta com diferentes tipos de pessoas etc. (Fonologia)

A palavra amor pode ter várias formas fonéticas, embora nem todos usem a forma como está representado na imagem, o mais comum é a de Fortaleza, o zero fonético, ou seja o /R/ final não é pronunciado. Não confundir o zero fonético com a vogal média fechada arredondada: [ø]
A palavra amor pode ter várias formas fonéticas, embora nem todos usem a forma como está representado na imagem, o mais comum é a de Fortaleza, o zero fonético, ou seja o /R/ final não é pronunciado. Não confundir o zero fonético com a vogal média fechada arredondada: [ø]

São etapas, para se chegar na fonologia é preciso estudar a fonética (seguindo essa linha de pensamento), no início, é preciso ter muito contato, descrever bem quais são os fones (unidade mínima da fonética), depois, encontrar os padrões e funções que os fonemas (unidade mínima da fonologia) têm na língua.
Assim como o hardware e software, o cérebro e a mente, a fonética não pode viver sem a fonologia e vice-versa ².

Dissertação sobre a palatalização em Recife.

Notas:
* Embora haja também a hipótese que a mente tenha uma característica física não definida. Mas não cabe aqui discutir esse tipo de coisa.
1 Refinada e bruta no sentido que uma (a refinada) requer um pensamento mais abstrato para o entendimento, mas não leve essas duas palavras com interpretações literais, é só um modo de falar.
2 Há quem ache que a fonética deve ser estudada independentemente da fonologia, você pode saber um pouco mais sobre isso aqui.

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3 comentários sobre “As diferenças entre fonética e fonologia

  1. Que texto maravilhoso e didático! Adorei a forma como foi explicada, ficou muito clara as diferenças e a função da Fonética e Fonologia. Muito obrigada!

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